Ele deixaria a redação às sete e meia.
-Feitosa, fecha essas janelas. Tenho frio nas canelas, porra.
Mentira. Não gostava mesmo é do barulho que vinha da rua, embora, alguns lugares não fossem os mesmos sem seus respectivos barulhos – ou silêncios. Redações teriam o cheiro sufocante do cigarro; elas ocupariam andares altos em prédios decadentes e descascados. Redações seriam análogas a puteiros, e estes, por sua vez, análogos á bibliotecas.
Ele olhava ao redor, a sala da redação ficando amarela com o final da tarde que caía decadente como um velho artista que olha para a sua obra e vê apenas a gangrena vermelha e o escárnio dos tempos em que ainda podia segurar o pincel sem tremer.
Triste, ele bem o sabia, embora, os jornalistas já tivessem ido embora e a paz reinasse ali.
-Feitosa, já disse pra tirar aquela porra de espelho da mira da minha mesa.
A barriga já fazia uma circunferência perfeita: era dos cinqüenta; a testa estava brilhante de suor, embora os quarenta graus já tivessem ficado no meio dia. Cabelos: não mais do que meia dúzia no topo. Os óculos eram grandes e grossos, o nariz era desajeitado e torto.
-Empurre essa estante para frente daquele espelho, Feitosa.
Certo. Feitosa empurrava a estante. Agora seus olhos negros e pequenos eram escondidos pelo terceiro volume de Decamerão.
Melhor assim: via-se recortado.
Os ponteiros se alinhavam retos no relógio.
Ele deixava a redação às sete e meia.
Descia as escadas, tirava as cascas de tinta que caíam pelos corredores. Tirava a gravata. Sabia que a lâmpada iria queimar quando ele passasse por ela: de fato ela queimava.
E a noite, quente, abafada, chegava deglutindo sombras e penumbras. Ele estacionava o carro na frente da praça: velha, lacerada por mendigos e prostitutas seminuas, cheia de árvores grossas e postes que lembravam candelabros.
Procurava-a; procurava sua sombra por entre as penumbras que se formavam embaixo das árvores.
Ela escaparia pela janela às sete e meia.
A indumentária cobria o corpo.
Comentara com Maria que fora muita sorte ter ficado com quarto do andar térreo. Maria queria saber o motivo, ela ordenara que se calasse. Ria baixinho quando Maria corava inteira.
-Louca. – Dizia Maria.
Madre superiora mal suspeitava quando chamava todas para tomar a sopa das seis horas e depois as mandava rezar. Ela não tinha coragem de rezar: trancava a Santa dentro do armário.
A luz do quarto era fraca, mas melhor do que a do quarto de Maria. Tirava o hábito, ficava nua. O espelho quedava-se na parede descascada e verde. As manchas roxas pelas coxas e braços tornavam-se amarelas à luz fosca.
Achava-se bonita, tocava-se. Continha rosnados e gritos roucos. Temia que Madre Superiora ouvisse qualquer coisa de despudorada e levantasse.
Olhava para o relógio, esperava.
Os ponteiros se alinhavam retos. Podia ouvir assovios despreocupados de transeuntes livres que passavam pela rua. Queria também assoviar.
A indumentária cobria o corpo novamente, mas agora o tecido roçava nos seios finos e pequenos, nos pêlos crespos e duros.
Ela escapava pela janela às sete e meia.
Andava os quarteirões nas sombras, passava em frente à casa de Tango, deixava de cumprimentar as prostitutas. Perdia-se nos becos, amava os amantes de longe por sentir-se como eles.
Chegava, enfim, ao centro da velha praça: lacerada por bêbados, bicheiros, drogados e putas que se amavam em baixo dos holofotes – holofotes esses que mais pareciam candelabros.
Agora o procurava; procurava sua penumbra por entre as sombras das árvores.
Viam-se, fundiam-se as bocas: daqui a pouco se amariam como prostitutas e bêbados, como penas e cartas, como lanças e peitos. Seguiam pelas sombras, buliam-se pelos holofotes.
Louco, doentiamente ele arrancava-lhe o hábito, sugava-lhe as aureolas, acariciava aonde bem lhe aprouvesse.
E ela tornava-se pagã, lambuzava-se toda, lançava rosnados e gritos roucos na garoa fina da madrugada, ensurdecia a neblina, negligenciava os pudores, arrancava valores de suas mentes, desgarrava-os.
De madrugada, ele pedia.
-Feche as janelas, sim? Tenho frio nas canelas.
E depois, quando faltava pouco para a manhã surgir, feriam-se e sentiam prazer. Ele cravava-lhes os dentes, a pele sangrava, ela tentava gritar, rouca. Ele batia-lhe na cara, apertava-lhe os seios entre as coxas, puxava-lhes os cabelos. Chamava-a de puta.
Quando a manhã surgia, exaustos e meio tontos, vestiam-se.
A indumentária cobria o corpo.
Ele voltaria para a redação às sete e meia.
Ela estaria de volta ao quarto às sete e meia.
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