I lost my heart, I buried it too deep, under the iron sea.

domingo, 5 de setembro de 2010

Sete e meia.

Ele deixaria a redação às sete e meia.

-Feitosa, fecha essas janelas. Tenho frio nas canelas, porra.

Mentira. Não gostava mesmo é do barulho que vinha da rua, embora, alguns lugares não fossem os mesmos sem seus respectivos barulhos – ou silêncios. Redações teriam o cheiro sufocante do cigarro; elas ocupariam andares altos em prédios decadentes e descascados. Redações seriam análogas a puteiros, e estes, por sua vez, análogos á bibliotecas.

Ele olhava ao redor, a sala da redação ficando amarela com o final da tarde que caía decadente como um velho artista que olha para a sua obra e vê apenas a gangrena vermelha e o escárnio dos tempos em que ainda podia segurar o pincel sem tremer.

Triste, ele bem o sabia, embora, os jornalistas já tivessem ido embora e a paz reinasse ali.

-Feitosa, já disse pra tirar aquela porra de espelho da mira da minha mesa.

A barriga já fazia uma circunferência perfeita: era dos cinqüenta; a testa estava brilhante de suor, embora os quarenta graus já tivessem ficado no meio dia. Cabelos: não mais do que meia dúzia no topo. Os óculos eram grandes e grossos, o nariz era desajeitado e torto.

-Empurre essa estante para frente daquele espelho, Feitosa.

Certo. Feitosa empurrava a estante. Agora seus olhos negros e pequenos eram escondidos pelo terceiro volume de Decamerão.

Melhor assim: via-se recortado.

Os ponteiros se alinhavam retos no relógio.

Ele deixava a redação às sete e meia.

Descia as escadas, tirava as cascas de tinta que caíam pelos corredores. Tirava a gravata. Sabia que a lâmpada iria queimar quando ele passasse por ela: de fato ela queimava.

E a noite, quente, abafada, chegava deglutindo sombras e penumbras. Ele estacionava o carro na frente da praça: velha, lacerada por mendigos e prostitutas seminuas, cheia de árvores grossas e postes que lembravam candelabros.

Procurava-a; procurava sua sombra por entre as penumbras que se formavam embaixo das árvores.

Ela escaparia pela janela às sete e meia.

A indumentária cobria o corpo.

Comentara com Maria que fora muita sorte ter ficado com quarto do andar térreo. Maria queria saber o motivo, ela ordenara que se calasse. Ria baixinho quando Maria corava inteira.

-Louca. – Dizia Maria.

Madre superiora mal suspeitava quando chamava todas para tomar a sopa das seis horas e depois as mandava rezar. Ela não tinha coragem de rezar: trancava a Santa dentro do armário.

A luz do quarto era fraca, mas melhor do que a do quarto de Maria. Tirava o hábito, ficava nua. O espelho quedava-se na parede descascada e verde. As manchas roxas pelas coxas e braços tornavam-se amarelas à luz fosca.

Achava-se bonita, tocava-se. Continha rosnados e gritos roucos. Temia que Madre Superiora ouvisse qualquer coisa de despudorada e levantasse.

Olhava para o relógio, esperava.

Os ponteiros se alinhavam retos. Podia ouvir assovios despreocupados de transeuntes livres que passavam pela rua. Queria também assoviar.

A indumentária cobria o corpo novamente, mas agora o tecido roçava nos seios finos e pequenos, nos pêlos crespos e duros.

Ela escapava pela janela às sete e meia.

Andava os quarteirões nas sombras, passava em frente à casa de Tango, deixava de cumprimentar as prostitutas. Perdia-se nos becos, amava os amantes de longe por sentir-se como eles.

Chegava, enfim, ao centro da velha praça: lacerada por bêbados, bicheiros, drogados e putas que se amavam em baixo dos holofotes – holofotes esses que mais pareciam candelabros.

Agora o procurava; procurava sua penumbra por entre as sombras das árvores.

Viam-se, fundiam-se as bocas: daqui a pouco se amariam como prostitutas e bêbados, como penas e cartas, como lanças e peitos. Seguiam pelas sombras, buliam-se pelos holofotes.

Louco, doentiamente ele arrancava-lhe o hábito, sugava-lhe as aureolas, acariciava aonde bem lhe aprouvesse.

E ela tornava-se pagã, lambuzava-se toda, lançava rosnados e gritos roucos na garoa fina da madrugada, ensurdecia a neblina, negligenciava os pudores, arrancava valores de suas mentes, desgarrava-os.

De madrugada, ele pedia.

-Feche as janelas, sim? Tenho frio nas canelas.

E depois, quando faltava pouco para a manhã surgir, feriam-se e sentiam prazer. Ele cravava-lhes os dentes, a pele sangrava, ela tentava gritar, rouca. Ele batia-lhe na cara, apertava-lhe os seios entre as coxas, puxava-lhes os cabelos. Chamava-a de puta.

Quando a manhã surgia, exaustos e meio tontos, vestiam-se.

A indumentária cobria o corpo.

Ele voltaria para a redação às sete e meia.

Ela estaria de volta ao quarto às sete e meia.