I lost my heart, I buried it too deep, under the iron sea.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Minha sombra.

Seus magros e compridos dedos se prenderam com força na lateral do banco traseiro do Ford 1974, quando o carro, que tinha o seu brilho apagado pela densa neblina matinal, fez uma violenta curva voltada para a esquerda.

Ele sentiu seu corpo ser puxado e teve a impressão que sua dor de cabeça aumentou com o movimento. Para que a clareza se faça notável, fosse apenas sua dor de cabeça, ele não responderia bruscamente ao homem que sentou ao seu lado.

Seu corpo todo começou a doer.

“Abra os olhos, estrangeiro. Aprecie a vista.” O velho britânico encostou uma das mãos em seu ombro.

“Não me importa. ” Esquivando-se para o lado, deixou que um suspiro impaciente escapasse de sua boca.

O velho pensou que aquilo era pura ingratidão. Além de pensar que era pura ingratidão, ele achou a maior bobagem do mundo aquele diálogo que, para ele, não passava de uma poesia pobre vinda de um jornalista barato. Entretanto, não falou nada, limitou-se a sorrir nervosamente e a passar os dedos entre os macios cabelos brancos.

O jornalista ponderou as vantagens das gotas que começavam a bater furiosamente contra o vidro do carro, de onde sua testa era separada por poucos centímetros. O tempo não seria mais diferenciado entre chuvoso ou ensolarado por ele. Tampouco seria diferenciado pelos ponteiros do relógio, muito menos pelos segundos, horas, dias... todos abstratos. O jornalista concluiu, por fim, que a chuva e neblina não eram vantajosas para nada, a não ser, é claro, para transformar sombras em penumbras.

Embora eu ache que o jornalista nunca tenha se tornado uma penumbra minha.

E ele lançou uma pedra, em um sincronizado movimento, para que esta fosse engolida pelas furiosas ondas do mar, naquele começo de um dia chuvoso e revoltado, pertencente a agosto. O vento deu nós em seus já emaranhados cabelos cacheados, e apagou o toco de cigarro que caiu de seus apáticos dedos brancos.

Ele sentou na rocha que fazia parte do conjunto de outras que formavam a encosta íngreme, e coçou a barba por fazer.

E eu, é claro, finjo que não sei da existência da sinuosa marca, entre o nariz e o grosso lábio superior. Para mim, sombras nunca tiveram e nem hão de ter marcas como aquelas. Muito menos sombras minhas.

O Castelo branco ao longe seria notado pelo jornalista. Suas peculiaridades o lembraram do prédio da mesma cor, mas de alguns poucos andares que ficava na zona oeste. Eira, beira e tribeira. Engraçado como as coisas funcionavam. Agora era ele quem estava sem eira nem beira.

Batidas petulantes eram ouvidas por todo o prédio. Ele viu a cena novamente, passando diante de seus olhos. Suas pernas tremendo como duas varas e, conseqüentemente, sua sombra sendo ainda mais covarde do que ele. A porta de madeira velha caíu no chão.

“Onde está o resto?” As palavras sórdidas eclodiram como bolas de canhão. “Bastardo. Seu porra.”

Dentro da pequena sala toda revestida de pedra e que era escura e quente – sim, quente. Lugares com gritos jamais serão frios, pelo menos não na minha concepção. – as palavras saíram livres como as melodiosas canções que eram entoadas na avenida.

Foi quando o jornalista topou a sua frustração com a minha.

Ele havia perdido a proteção de quem ele tanto idolatrava. Foi quando ele se autodenominou penumbra minha. Mas, como eu disse antes, sombras minhas são sombras minhas mesmo nos nebulosos dias ingleses. Basta olhar para tonalidade de sua tez para perceber que tal sombra me pertence.

E, lembrando disso tudo, ele se levantou de cima da pedra e caminhou apaticamente, como passara a fazer sempre, e se dirigiriu ao Ford 1974. Ele se sentou ao lado do cavalheiro inglês e pegou das mãos do cavalheiro, o bilhete com o maldito numero inscrito nele.

Vôo 12828.

“Eu sorriria se estivesse voltando.” O cavalheiro inglês, como sempre, fazendo comentários inúteis. Sua voz britânica soando escarnecidamente fútil.

Mal sabe ele que eu sorriria também. Mas eu não posso sorrir, porque o jornalista acha que se tornou uma penumbra minha. Pior do que isso, ele acredita que eu também me tornei uma penumbra, e ninguém gosta de saber que está voltando para uma.

As palavras ‘Londres’ e ‘aeroporto’ feriram o ouvido do jornalista. Ele parou, retesado, diante do portão de embarque e estalou os olhos como se tivesse tomado baldes e mais baldes de café. Como de fato fazia quando passava as noites pensando em mim.

Ele passou pelo portão de embarque e teve a sensação de estar ouvindo violões sendo dedilhados, mesmo que estes se encontrassem do outro lado do atlântico. Os violões, que igualmente são sombras minhas.

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