Bandas sempre possuem o álbum característico que as fazem ser lembradas e reconhecidas. Álbuns que marcam uma época. Por exemplo, os Beatles possuem o Sgt, Pepper's Lonely Hearts Club Band, o Pink Floyd possuí o Dark Side Of The Moon, o do Oasis é o What’s the Story? (Morning Glory) e o Radiohead marcou milhares com o Ok Computer. O álbum Something About Airplanes, primeiro trabalho da banda norte americana Death Cab For Cutie, lançado em 98, está longe de ser um deles.
O álbum é totalmente desprezado pela maioria do público da banda, o qual idolatra o Plans e o Transatlaticism, que são fantásticos álbuns também, na minha opinião, mas que não conseguem ter o espírito irônico e nem a maturidade do Something About Airplanes. O álbum traz a tristeza da vida adulta, fala de como a mesma não é fácil e encara uma realidade pessimista com arranjos de guitarras surreais e ritmo nostálgico. É com esse trabalho que Benjamin Gibbard mostra aos seus fãs o quanto é capaz de falar sobre sentimentos através de metáforas pesadas e melodias intimistas.
Este é um dos pouquíssimos álbuns que conseguiu me elevar para outro tipo atmosfera. É o álbum mais esculachado e injustiçado do DCFC, mas eu ouso dizer aqui que é o melhor álbum da banda e um dos meus favoritos de todos os tempos.
A Primeira faixa, Bend To Squares começa fúnebre, com a guitarra fazendo às vezes de um violino e o violão dedilhado ao fundo. A letra não faz sentido algum, mesmo assim parece trazer os sentimentos de alguém que esta no fim da vida, e que desperdiçou a mesma com tentativas fracassadas. Ela é absolutamente linda e uma das melhores de Benjamin Gibbard. Perfeita para se ouvir tomando um chá, naquele inverno, embaixo dos cobertores, observando a chuva cair pela janela. Em seguida, vem um dos pontos altos do álbum: President Of What? O sintetizador do começo nos lembra da solidão que é estar dentro de um avião a milhares de metros nas nuvens. Parece até que imita o som do vento de encontro com a lataria do avião. Mas isso, é só no começo, pois a música estoura para um ritmo mais revoltado e rebelde. A frase Something’s got to break you down acaba com quaisquer perspectivas de felicidade completa. Em seguida, vem o solo e a voz que fala ao fundo onde podemos notar um pouco da ironia do Ben:
(For years, I've been closely watching parents and children.
I've noticed how the success of children later on
really starts very early, in the home.
All boys and girls are born with their own special talents.
These talents have their greatest chance to grow
in a friendly, loving home.)
E a musica cai acabando com uma das frases mais verdadeiras que algum letrista já escreveu: ‘Cause nothing hurts like nothing at all, When imagination takes full control.’
Champagne From A Paper Cup começa com uma batida peculiar, lembrando uma marcha. Fala sobre alguém desesperançado, que, aparentemente, está bebendo demais enquanto espera outra pessoa em um bar. Uma situação tipicamente normal de bares, mas o que chama a atenção nessa lindíssima música não é a letra, mas sim a melodia. Se fechar os olhos, poderá sentir o cheiro da madrugada e aquela atmosfera sombria de alguém que está bebendo por pura tristeza.
Your Bruise, pra mim, é a melhor musica que o Death Cab For Cutie já fez. Uma obra-prima; masterpiece absoluta. O ápice do álbum. A letra é uma pessoa relembrando o passado da outra e dizendo que as feridas foram curadas, porque, aparentemente, a outra pessoa insiste em continuar sofrendo. Your Bruise é um outro universo. O solos das guitarras calmas do começo acompanham a idéia do que o Ben começa a cantar: a outra pessoa não consegue, ou pelo menos faz os outros acharem, que ela não consegue superar as marcas do passado. A entrada do baixo e da bateria voltam, junto com a letra, para o passado: We sped the Plymouth ‘cross the banks of the Mississippi River, Mary Timony was smaller than a super ball e aí então, vem para o coro, que é quando o locutor diz que a ferida foi curada, porque não se pode mais senti-la. Your Bruise está entre as minhas 10 musicas favoritas de todos os tempos, e é nela que eu percebo que Benjamin Gibbard é um gênio musical.
A mais animada Pictures In An Exhibition critica dizendo que as pessoas são plásticas, sem corações, sem expressões: And all your plastic people with plastic hearts and smiles
They had the worst intentions all along after all.É, basicamente, um desabafo de quem acha que as pessoas estão cada vez mais alienadas.
Voltando ao ritmo mais intimista, Sleep Spent, é outro ponto alto do álbum, e é linda. Simplesmente maravilhosa. Fala sobre quando os casais decidem dar um ‘tempo’. Mas, diferente do que acontece na maioria das vezes, um dos dois assume a culpa, admitindo que vá quebrar o coração do outro e pedindo pra se afastar:So, drive away your mouth from my ears, and waste a day so I can think clearly. Um trilhão de emoções passam pelo meu coração quando eu escuto Sleep Spent, minha segunda favorita do álbum. Você pode sentir toda a dramaticidade que é uma crise em um relacionamento, onde as pessoas realmente se gostam, e todo o clima pesado e triste que envolve isso.
A psicodélica, mas igualmente sombria, The Face That Launched 1000 shits, é uma música cuja letra foi feita para não fazer sentido algum. É uma das musicas do DCFC que você pensa: ‘poxa, cara, eles estavam chapados quando escreveram isso’. Mas, quando eu fecho os olhos, eu posso me imaginar sentada perto de um lago gelado com montanhas ao redor. E eu sei que é muito pessoal, mas é isso que eu adoro nessa musica. Apesar do título e da letra sem sentido (você está em uma sala, sozinho, mas, de repente, você é o rosto que lançou mil merdas numa praia da Ásia menor) é uma bela musica.
Amputations, ao meu entender, fala sobre cortar fora as coisas que nos fazem mal. A introdução é lenta, mas então a bateria entra dando a idéia de que somos cretinos o sufiente para mantermos nossas mentes ocupadas com coisas que realmente não importam, deixando as coisas que importam de lado. Vocais abafados, guitarra puxada. Sabe quando você está morrendo de raiva de si mesmo e pensa que é um babaca? Amputations vai te dizer justamente que você é um babaca, de fato. Grande musica.
Não que Fake Frowns seja uma musica ruim, mas creio que tenha destoado um pouco do resto do álbum com relação a ‘profundidade musical’. Talvez o ritmo seja acelerado demais, mas é uma boa musica. Para se ouvir quando se está agitado.
Assim como Presidente Of What? e Your Bruise, Line Of Best Fit, o fechamento desse magnífico álbum, possui aquele mesmo sintetizador do começo – lembrando o vento que sopra acima das nuvens. Uma música para o coração, como diz um amigo meu. Sombria, triste, melancólica, depressiva, intimista e... perfeitamente sublime. Aqui, as guitarras são abafadas, dando a idéia de sufocamento, que é o que o locutor da musica dá a impressão de estar sentindo: Can't escape this line of best fit. É quando você sabe que algo ruim vai lhe acontecer, mas você não tem a menor chance de escapar. É musica pra quem esta na fossa, uma depressão do cara***. Mas a melodia é grandiosa no que diz respeito a te fazer sentir as emoções mais variadas, e bem no fundo da sua alma mesmo. É no final dos 7 minutos de música que a parte de arrepiar os cabelos começa. Uma voz extremamente suave começa a cantar, no fundo do sintetizador deprê que vai e volta como se, de novo, fosse ventos gelados batendo acima das nuvens. Não poderia fechar um álbum de uma maneira mais linda, Ben Gibbard.
E o que eu posso dizer que temos em 43 minutos de música? Perfeição. Isso mesmo.Posso dizer que, depois dos dois primeiros do Keane, o Something About Airplanes é o meu álbum favorito, é o típico álbum que nunca vou me enjoar de ouvir de novo e de novo por anos. É uma pena que seja tão desprezado pelos fãs mais novos do DCFC, pois pode mudar a visão de como você vê o mundo.
Vou deixar o link aqui, mas não espere sair dançando ou se sentir feliz quando ouvir o Something About Airplanes. Como já disse, é um álbum pesado, sombrio e difícil de gostar de primeira, porque ele vai tocar nas suas feridas abertas e te deixar na fossa, mas, ainda assim, estar lá quando você desmoronar.
Something About Airplanes por Death Cab For Cutie - 9,5 de 10.

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